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Parabolóides hiperbólicos

Luis Fernando Verissimo

Convenceram o professor Telles a ser o técnico do time da escola. Não que ele entendesse. Não entendia nada. Nunca tinha sequer chutado uma bola. Mas não havia mais ninguém para treinar o time. Que perdia todas e não tinha a menor autoconfiança.

O início da temporada seria em uma semana. O professor Telles resistiu, resistiu, e finalmente topou. Reuniu a turma para o primeiro treino. Bola embaixo do braço, apito na mão, os garotos à sua volta. A primeira preleção. E o professor Telles sem saber o que dizer.

Improvisou:

- A base do nosso sistema será a hipotenusa.

Os garotos de entreolharam. Conheciam a hipotenusa das aulas do próprio professor Telles. Não sabiam como a hipotenusa se aplicava ao futebol. Ficaram esperando que o professor Telles explicasse. Mas a preleção já tinha acabado. Certamente ninguém ali precisava que se explicasse o que era hipotenusa.

- Vamos lá, vamos lá - disse o professor Telles, enxotando-os para dentro do campo. - Lembram-se da hipotenusa.

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Volta e meia o professor Telles apitava, para interromper o treino.

- Olha a hipotenusa!

Os garotos confusos. Fosse o que fosse a hipotenusa, eles não estavam acerando. Mas volta e meia o professor gritava: "Isso! Agora sim!" e eles descobriam que tinham acertado a hipotenusa. Ficavam mais confusos ainda.

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O jogo de estreia foi acidentado. Principalmente porque o juiz teve que avisar ao professor Telles que ele não podia apitar para chamar atenção dos seus jogadores quando erravam uma jogada. Só quem podia apitar era ele. O professor Telles achou aquilo meio discriminatório mas concordou. E o time do professor Telles, depois de um mau começo - e depois das suas instruções, no intervalo, para que alternassem a hipotenusa pela direita e a hipotenusa pela esquerda - passou a dominar o jogo. E venceu!

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Venceu todas. Nunca o time da escola tinha ido tão bem numa temporada. Chegaram à final contra o time do colégio dos padres, invictos. Mas, conforme anunciou o professor Telles no treino antes do grande jogo, a tática da hipotenusa estava manjada. Preparariam uma surpresa para o adversário. Mudariam completamente de tática. Usariam parabolóides hiperbólicos. Alguns jogadores reagiram: será que era prudente? Em tática que está dando certo não se mexe... Mas o professor Telles insistiu. Era preciso ousar. O adversário esperava a hipotenusa, se prepararam para a hipotenusa? Iriam de parabolóides hiperbólicos para cima deles! Pela direita e pela esquerda.

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Mas o time do colégio dos padres fez um gol no segundo minuto de jogo. E outro quase no fim do primeiro tempo. E, como se sabe, não há tática predeterminada que resista a um placar adverso, seja ela o que for. No vestiário, o professor Telles anunciou que abandonariam os parabolóides hiperbólicos. Retornariam à tática da hipotenusa! Os garotos vibraram. Voltaram ao campo e viraram o jogo. Quatro a dois. Continuavam não sabendo o que era a tática da hipotenusa. Mas o fato é que, com ela, não perdiam para ninguém.

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O professor Telles está pensando em escrever alguma coisa sobre a sua experiência. Não será nem sobre geometria nem, claro, sobre futebol. Psicologia.


Domingo, 8 de agosto de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.